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Servidor

SERVIDOR


(Traduzido do francês, do Dicctionaire Encyclopédique de la Biblie, de Westphal, por Viviane Ribeiro, para o GEAK)


(Servidor, do hebreu èbèd, naar, mechareth; do grego doulos, païs, thérapôn, leitourgos, diaconos, latreûs)

Doulos, ver Escravo; 

païs, isto é, criança, é usado por extensão para todos os servos e os escravos encarados como pertencentes à família: 

os servos de Herodes (Mt 14:2), Davi servo de Deus (Lc 1:69, At 4:25), Jesus na condição de Messias (Mt 12:18, At 3:13,26 4:27 30).


thérapon é usado apenas uma vez (Heb 3:5), para designar Moisés, servo, enquanto administrador da casa de Deus (equivalente a leitourgos em Heb 8:2, cf. Mt 24:45, Lc 12:42);


leitourgos, servidor, ministro, mais no sentido de um serviço público (Heb 8:2, Rom 13:6), de um sacerdócio (Rom 15:16, cf. Heb 1:7);


diaconos, empregado sobretudo nas epístolas de Paulo e nos Atos para designar um ofício, relacionando-se a uma atividade para Cristo (1Tes 3:2,1Cor 3:5, 2Cor 3:6 6:4 11:23, Ef 3:7, Col 1:7,23,25 4:7, 1Tim 4:6, cf. Jo 12:26) ou a um ministério de caridade (Flp 1:1,1Ti 3:8,12, At 6:3, cf. Mt 4:11 em que ele se refere ao ministério dos anjos), de onde vem a palavra diácono; 

latreus não é usado no Novo Testamento, mas a palavra latreïa e o verbo latreueïn são encontrados diversas vezes para indicar o serviço de Deus em suas atribuições morais, religiosas e cultuais (Rom 9:4, Heb 9:1 Rom 12:1, em que a palavra é usada em oposição ao serviços dos ídolos, cf. 1Mac 1:43 etc): no entanto, traduzir latreïa por «culto» em lugar de «serviço», é reduzir a noção contida no texto e correr o risco de deixar acreditar que o serviço de Deus pode se fechar na devoção cultual. Deste modo, em Mt 4:10 (que vem diretamente de Deut 6:13) e em Rom 12:1, a palavra serviço responde melhor do que a palavra culto à ideia expressa em grego.


De todos estes textos e outros que poderíamos citar, ressalta o fato de que a noção de servir, de servidor, é um dos dados mais importantes da Bíblia, uma nova palavra de ordem.


Nossa humanidade, cuja origem está na rebelião da criatura contra as ordens do Criador, confunde muitas vezes o serviço com a sujeição. Servir, para ela, é rebaixar-se, escravizar-se.

«Nem Deus, nem Mestre!» Esta fórmula moderna de um sentimento que é velho como o mundo é explicada pelo fato que o «serviço» começou na sociedade humana com a escravidão, continuou com a servidão, e que a Igreja, em sua história, fez tudo o que dependia dela para dar crédito à ideia de que Deus protege os grandes em detrimento dos pequenos. O descrédito que se atribui à palavra servir, vem também de uma falsa noção de liberdade; ou, se preferirmos, de uma confusão entre a liberdade verdadeira e uma maneira errônea de compreender a igualdade. A despeito dos maus pastores, o bom senso popular sabe claramente que um exército não pode compor-se somente de generais ou que uma usina não tem unicamente diretores. Da mesma forma para o corpo social e para o corpo humano. Não se pode viver sem um cérebro que pense, ou sem membros que ajam sob seu impulso. Mas se o cérebro se comportasse diante dos membros como se comportam na sociedade aqueles que comandam diante dos que obedecem, não haveria na terra um único corpo em forma e com saúde. Eis porque os cristãos autênticos não podem tomar partido do estado de coisas que rege o conjunto dos homens.

Mas aqui, o ponto de vista da humanidade segundo o Espírito é completamente oposto ao ponto de vista da humanidade segundo a carne. O segundo gostaria de suprimir o servir, ao passo que o primeiro quer estendê-lo a todos. Bem longe de ver no serviço um rebaixamento, uma servidão, ela vê aí uma marca de grandeza e uma fonte de liberação. É impressionante ver a Bíblia, - escrita em um meio onde reinava a escravidão, em que as palavras servidor e doméstico são, na maior parte dos casos, tanto no Antigo Testamento quanto no Novo Testamento, sinônimos de escravo -, estabelecer leis, formular reivindicações, desenvolver uma religião que, do começo ao fim, têm como fundamento a noção do serviço para todos e a igualdade moral de todos os servidores diante de Deus.

A Bíblia não lisonjeia o homem; ela não o ilude. Ela lhe diz que a criatura caída não é livre por natureza. Que ela foi criada pelo Bom Deus, que foi desviada por um poder malfeitor, que ela não tem outra liberdade senão escolher a quem quer servir: o infernal sugestor, que acabará de levá-la à perdição corrompendo-a, ou o Criador que a fez segundo a sua imagem e semelhança e que a restabelecerá na liberdade dos filhos de Deus devolvendo-lhe o Espírito Santo, se ela o servir com fidelidade. Tendo colocado assim a alternativa do serviço humano, Jeová escolhe pela divina experiência o povo de Israel, cuja educação ele empreende. 

A história de Israel não é outra coisa senão um drama do serviço; Israel é abençoado ou castigado, dependendo se ele serve ou não ao Deus bom que o chama para ser o instrutor de todos os povos no caminho do bem. A revelação aos patriarcas, chamados servidores de Deus (Gen 15:1,6 28:20-22 Deut 9:27), não é apenas outra coisa senão uma revelação de serviço. Nenhum conteúdo novo de religião ou moral; esta será mais tarde a tarefa de Moisés.

Naquele momento, Deus não pede nada a suas primeiras testemunhas senão a marcha pela fé: «Deixa teu país, tua pátria..., vai ao país que eu te mostrarei... e eu te abençoarei.» A recompensa vai toda para a fidelidade do servidor (Gen 12:1 17:3 28:20 e seguintes, Deut 9:27). Moisés traz às tribos fugitivas os princípios religiosos e morais de um decálogo que funda o direito divino sobre o serviço prestado por Jeová aos filhos de Jacó (Ex 20); ele acrescenta às suas leis o mandamento do amor: amor por Deus (Deut 6:5), amor pelo próximo (Le 19:18). O amor é o nervo do serviço.

Para bem servir é preciso amar (Jesus fixou as relações do amor e do serviço em Jo 14:15-21). O israelita é então, por definição, o servidor de Jeová (Deut 10:12, Jos 24:14,1Sam 12:20 etc.). Servidores de Jeová, os hebreus têm o dever dos serviços mútuos (Ex 20:12,26 Ex 21 Ex 22). 

Os profetas, desenvolvendo a doutrina do serviço, mostram que na religião de Jeová, o Pai do povo escolhido, deveres filiais e deveres fraternais são inseparáveis (Am 5 e Am 8, Os 4 e Os 5, Miq 6 e Miq 7, Is 1, Jer 2, etc). Israel deve inclusive estender seus serviços aos estrangeiros, a qualquer pessoa que esteja na penúria (Lev 19:33, Deut 24:10 e seguintes, etc.), pois Jeová é também o Pai de todos os homens (Am 9:7, Mal 1:11) e quer que pelo exemplo de Israel, todas as nações cheguem a servi-lo (Is 56:6 19:23 e seguintes). Em Israel a vida fraterna entre os que possuem e os que não possuem, entre os que comandam, e os que obedecem, deve ser tal que ninguém deva sofrer com a pobreza (Deut 15:4);) e esta cooperação no serviço mútuo não deve ter uma causa interessada, como foi o caso da Idade Média, para melhorar a sorte do estado da servidão desde o édito de Luís X, o Teimoso em 1315; ela deve ser inspirada pelos sentimentos do coração e especialmente pelo reconhecimento a Deus, que desde a saída do Egito presta a seu povo todos os dias serviços magníficos (Deut 4:7 5:15, Os 2:10, Sl 116:12). Enfim a profecia, indo além dela mesma, anuncia que a obra suprema da compaixão de Deus será a manifestação do Servidor de Jeová (ver art.), cujo serviço será devotar-se, sofrer, morrer para, através de seu sacrifício voluntário, trazer a luz, a liberação, a salvação à humanidade (Is 42:1,9 52:13-53:12, cf. At 3:13-26 4:27 e seguintes, Mt 12:17 e seguinte).

Jesus surge. Ele vem, Filho Único de Deus (Jo 3:16), portador da mensagem de reconciliação. Decidido a trazer os homens de volta ao serviço de Deus, mas decidido também a usar, para realizar sua obra santa, apenas meios de santidade, ele se apresenta «não para ser servido, mas para servir» ( Mt 20:28).

Servidor perfeito de seu Pai e servidor perfeito de seus irmãos, ele fala, age, censura, chama, corre o risco supremo (meditar sobre o «talvez» da parábola dos maus lavradores, Lc 20:13).

Se os homens recusam o servir, ele os substituirá e, em seu servir, pagará o resgate de todos (de Mt 20:28, relacionar a 1Cor 6:20 7:23, Heb 9:12 e Jo 12:32); ver Expiação. Pelo horror e pela atração da sua morte, serviço aceito antecipadamente (Jo 10:18 12:27), ele reconquistará o coração dos homens para Deus, ele vai arrancá-los do serviço corruptor de Satã para dá-los ao serviço santificado de Deus (ver Regeneração), - pois ele sabe que não se pode servir a dois senhores: Deus e Mammon  (Lc 16:13). Ao longo de um ministério de três anos, consagrado antes de tudo a formar seus discípulos para servir, ele lhes mostra o que custa servir a Deus no meio de uma humanidade decaída, infeliz e rebelde.

Aquele que serve não deve esperar receber de seus semelhantes o que ele merece, mas deverá servir amando como Jesus (Jo 15:12), devotando-se aos outros, para elevar os outros e levá-los para «a estatura perfeita do Cristo» (Ef 4:13).

«Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque o sou. Se logo eu ... Eu estou no meio de vós como aquele que serve... Eu vos dei um exemplo, para que vós façais assim como eu o fiz. O servo não é maior do que o seu mestre» (Jo 13:13 e seguintes, Lc 22:24 e seguintes). Com estas palavras e seu gesto Jesus associa seus discípulos à obra redentora: «Vós bebereis o cálice que eu bebo» (Mc 10:39). Esperando poder associá-los à sua glória: «Se alguém me serve, meu Pai o honrará» (Jo 12:26,17:24, Mt 25:21), glória para a qual eles preparar-se-ão ao realizar os mais humildes serviços fraternais (Mt 10:42 25:31 e seguintes). Por um momento, e nas condições da vida presente, servir é, pois, tomar a atitude mais nobre que se possa ter sobre a terra, porque é identificar-se com Jesus Cristo e colaborar para a salvação da humanidade pela qual Ele deu sua vida. Mas isto leva bem longe, pois Satã se defenderá, ele amotinará contra os servidores de Deus todas as forças do mal (Mt 10:24, Jo 15:20). O servir em que nos engajamos fará romper os quadros em que o egoísmo e o orgulho da sociedade humana e, às vezes, da própria Igreja, estabeleceram suas ambições, suas lutas, seu bem estar... (Mc 10:30, Mt 5:10:34 16:24 24:1-14).

Depois de seu Mestre, o apóstolo Paulo, que se intitula, em suas epístolas, o servidor, o escravo do Cristo (doulos), marcha heroicamente na via real do servir. Nada mais emocionante do que seu interesse pela Igreja de Jerusalém que, ele bem o sabe, não tem simpatia por ele. Ele arrisca até mesmo a sua vida para levar, ele mesmo, aos irmão da Judéia, a coleta que arrecadou na Macedônia e na Acaia (Rom 15:26). 

Aos Coríntios, ele lembra o respeito que é devido às famílias que, como a família de Estéfanas, dedicam-se «ao serviço dos santos» (1Cor 16:15 e seguintes; ver também 2Cor 9).

Na epístola aos Gálatas, ele «desenvolve longa e ardentemente a ideia de que se Deus arrancou o crente da servidão da lei e o fez um homem livre, foi visando este grande e magnífico evento: este homem se serve de sua liberdade para tornar-se, através da caridade, servidor dos outros.» (Gal 5:13) (P. Doumergue, Servir, 1929, p. 313.)

Na epístola aos Filipenses ele mostra em Jesus o ideal do servidor e exorta seus leitores a assemelharem-se a ele (Flp 2:5 e seguintes). Em Rom 12:9,21, ele escreve a carta do serviço cristão; em 1Cor 13, ele canta o seu hino; em Rom 12:1, ele dá o seu princípio: «Eu vos exorto então, irmãos, pelas compaixões de Deus, a oferecer vossos corpos em sacrifício vivo, santo, e que Deus possa concordar; este é o vosso serviço racional» (tên logikên latreïan humôn). Vê-se aí quanto o cristão, chamado a ser o servidor de Deus e, por Deus, de seus irmãos, à maneira de Jesus Cristo, trai a causa que lhe foi confiada, quando, reduzindo o serviço à devoção, ele se contenta em celebrar cultos e imagina estar em ordem com Deus por ter construído templos, entoado cânticos, realizado ritos, oferecido preces e donativos.

Servir não é, tampouco, compartilhar as utopias dos teóricos deste mundo que imaginam, por meio de leis democráticas ou pelo imperialismo da força, através dos progressos da civilização ou pelo sangue das revoluções, destruir a desigualdade e a injustiça que reinam no interior das nações. Servir é mostrar às pessoas do mundo que se pode constituir, neste mundo, pela graça do Cristo, uma sociedade diferente do mundo, em que não reine mais a sede do gozo, do enriquecer-se, do dominar (Lc 22:25-27). Este serviço introduz cá embaixo, o servidor, imitando seu Mestre, no caminho da renúncia e do sacrifício; pregar a cruz não basta mais, é preciso carregá-la (Mt 10:38 16:24, Jo 15:20 etc.); mas ao mesmo tempo este servir lhe garante, desde aqui, pela comunhão com seu Mestre, uma dupla recompensa: o poder e a alegria (At 1:8, Rom 8:37, Flp 4:13 etc.).

Quando Jesus disse a seus discípulos: «Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou» (Jo 4:34), ele lhes revelou que a obediência a Deus é um alimento para a alma. O serviço dos homens esgota, o serviço de Deus fortifica e torna o mais fraco invencível. (cf. 2Cor 12:9) O sentimento desta força, a experiência de vitória que ela garante, as esperanças que ela legitima, preenchem o coração com uma alegria que o mundo não conhece e que domina as adversidades do mundo. «Ninguém roubará a vossa alegria» (Jo 16:22,15:11, e as Beatitudes: Mt 5:12). É assim que Pedro e João se retiram do Sinédrio cheios de alegria por terem sido julgados dignos de sofrer em nome de Deus (At 5:41); que Paulo e Silas entoam cânticos na noite do calabouço (At 16:25); que os huguenotes cantavam no caminho do suplício: «Eis aqui o dia feliz», e que no fim da vida Whitefield podia dizer: «Oh Deus, eu me cansei em teu serviço, mas não de te servir.» Alex. W.

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