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Educação e instrução

Educação e instrução

 

(Definição do Dictionnaire des sciences philosophiques, 2ª ed, Paris, 1875.)

 

         Educação: Para que se faça inicialmente uma ideia justa do que se deve entender por essa palavra, basta lançar um olhar sobre uma criança recém-nascida. Esse ser tão frágil, tão desnudo, traz em si os germes das mais poderosas, das mais nobres faculdades. Abandonado a si mesmo, não tarda a perecer; e se cuidados inteligentes não vêm dirigir seu desenvolvimento, supondo-se que ele viva, estará exposto a toda sorte de deformidades físicas e morais. Ora, esses cuidados constituem o que chamamos educação, e é da educação, tomada nesse sentido, que tentaremos determinar os princípios gerais, o objeto e a finalidade.

Aqui, pois, não entra em questão a educação universal pela qual a Providência conduz a espécie humana para seu destino final, nem dessa educação   indireta que se compõe de todas as circunstâncias naturais e sociais sob o império das quais se edificam os indivíduos, e que, tomando-os no berço, os conduz, através de todos os acidentes da vida, à sua destinação particular. Trata-se unicamente dos cuidados que os pais e os mestres dão a seus filhos e a seus alunos, para dirigi-los em seu desenvolvimento físico e moral.

Toda geração nova cresce naturalmente sob a influência daquela que a produziu, e recebe desta última direções, opiniões, hábitos, exemplos. Primitivamente essa educação é toda natural: os pais ensinam aos filhos o que aprenderam com seus antepassados, e as crianças imitam o que vêm fazerem os seus pais. Essa imitação já é um princípio de progresso, pois aperfeiçoa e engrandece aquele que imita; no entanto, uma melhoria real e geral da condição humana não é assegurada senão no momento em que a educação se torna um estudo, uma arte que tem seus princípios e suas leis.

É a essa educação direta e refletida que a humanidade deve todos os seus progressos. É por ela, se bem dirigida, que a geração que nasce entra na posse de todas as conquistas das gerações que viveram, e se torna capaz de aumentar essa herança e melhorá-la.

Assim, a ideia de educação cresce: ela não tem por objeto unicamente dirigir o desenvolvimento da criança como indivíduo; ela deve também assegurar o progresso regular da sociedade, o aperfeiçoamento da espécie como um todo.

A essa educação filosófica e puramente humana, cujo objeto é o desenvolvimento gradual e legítimo das faculdades, opõe-se a educação factícia[1] e interessada, que tem por fim adestrar a infância, moldá-la, pelo hábito e pela prevenção, para uma determinada ordem de coisas e de ideias, que se quer a todo custo estabelecer ou perpetuar.

A educação artificial tem como propósito um objetivo de convenção, e não o atinge senão falseando a razão e violentando a natureza. Tal foi a educação entre os espartanos; tal era, em geral, a que dirigia as ordens monásticas. Tal é ainda a dos chineses, que se esforça para encerrar para sempre os homens e as instituições em formas estabelecidas e consagradas. Um tal obra não pode se sustentar ao longo do tempo, e, em vez de reformas sábias e graduais, provoca revoluções violentas ou a decadência. A educação filosófica, ao contrário, baseada no conhecimento da verdadeira natureza do homem, respeitando a ordem das coisas estabelecidas, mesmo consolidando-a naquilo que ela tem de razoável, tende a melhorá-la, a aperfeiçoá-la. Todavia, esse gênero de educação não é possível senão numa sociedade fundada ela própria no respeito e na dignidade humana, uma sociedade livre que conjuga o progresso com a estabilidade. Em uma sociedade assim, a educação será ao mesmo tempo conservadora, reafirmando as bases da constituição, e progressiva, porque sua constituição não exclui nenhuma melhoria orgânica e regular; ela será política e social ao mesmo tempo que racional, nacional ao mesmo tempo que moral e humana.

A educação artificial forma atores, adestra as crianças para o papel que terão que representar na sociedade; a educação verdadeira tende a formar homens e cidadãos; a primeira, para atingir seus fins, para lograr inculcar em suas vítimas um sistema de ideias ou de sentimentos mais ou menos factícios, obriga-se a empregar meios violentos, e em vez de cultivar e enobrecer a natureza, falseia-a ou a sufoca, deprime-a e a degrada por um lado, e por outro estica-a e a exalta parcialmente, além da medida; a educação verdadeira, ao contrário, dirige e acelera o desenvolvimento de todas as faculdades, regulando-as unicamente pela razão e a moral.

Na linguagem usual, as palavras instrução e educação são sinônimas, e o são com razão, porque a instrução e a educação reciprocamente se supõem: elas interpenetram-se constantemente uma na outra e coincidem quase sempre. No entanto, assim como todos os sinônimos, essas duas palavras exprimem duas espécies de um mesmo gênero, ou uma ideia comum com nuances que as distinguem. Tanto a educação quanto a instrução têm por objeto o desenvolvimento e  o exercício das faculdades, mas a primeira dirige-se mais à alma, ao coração, às paixões, e a segunda à imaginação, ao entendimento, ao espírito; a educação tem por objeto formar o caráter e os hábitos, a instrução desenvolver e alimentar a inteligência. A educação é impossível sem a instrução, pois tudo o que há de virtualidade na consciência somente pode realizar-se pelo pensamento; e a instrução, pelo fato de que esclarece o espírito, dispõe-no a receber a educação: ela é, por um lado, a educação da inteligência, da razão, e, por outro, o instrumento da educação integral.

A educação e a instrução são inseparáveis na prática, não obstante podemos e devemos tratar separadamente princípios e regras de uma e de outra: a educação, tendo diretamente por objeto o desenvolvimento das faculdades e a formação dos bons hábitos, admite a instrução apenas como um de seus meios; a instrução ou o ensino, considerado em si, como tendo por fim especial a transmissão dos conhecimentos e da cultura do entendimento. A educação, em sua acepção restrita, é a geórgica[2] da alma, a instrução, a do espírito. A arte da educação e a da instrução pressupõem, uma e outra, a da disciplina. Todas as três constituem em seu conjunto a ciência pedagógica.

Esses diversos braços da ciência e da educação repousam evidentemente sobre certos fundamentos comuns, sobre princípios gerais, que devem ser buscados e postos antecipadamente, e compõem a filosofia da educação. Esta tem por objeto, apoiando-se na ciência do homem e particularmente sobre a moral,  determinar a finalidade de toda educação, e fixar-lhe os princípios supremos.

A filosofia da educação tem que primeiramente tornar reconhecida a sua função, a sua necessidade como ciência, e suas relações com os outros braços da filosofia; em seguida, indicar seu objeto e seu fim. Sua necessidade, se não for provada pelos efeitos de uma boa educação, o será pelos efeitos que resultam de uma má educação e pelo estado de brutalidade e de miséria em que se demora aquele cujas faculdades permaneceriam sem cultura; prova-o principalmente pela própria natureza de suas pesquisas e de seus preceitos, cuja importância não deixa de tocar os espíritos; esses preceitos, por serem muito naturais e de grande simplicidade, não são menos dignos de reflexão e de estudo, e não poderiam ser bem compreendidos sem certo esforço. Quanto ao seu objeto, o conjunto dos meios que servem à educação, ela não o cria, ela o submete à ação do raciocínio e o traduz em sistema: empresta-o da ciência do homem, da fisiologia, da psicologia, da lógica, da moral, da qual é uma aplicação. Enfim, quando ao seu princípio geral,  pode-se dizer com Platão que uma boa educação consiste em dar ao corpo e à alma toda perfeição de que são suscetíveis; ou com Kant, que há em todo homem um homem divino, os germes de um homem perfeito, de conformidade com o tipo segundo o qual Deus o criou, e que a educação deve favorecer e dirigir o desenvolvimento desses germes. No entanto, o essencial é saber qual é essa beleza, essa perfeição à qual devemos aspirar e por que meios podemos dela nos aproximar. Podemos dizer, com Rousseau, que é preciso reportar tudo às disposições primitivas e lhes dirigir o desenvolvimento para o que a razão reconhece ser o melhor; mas o importante é saber quais são essas disposições primitivas e o que quer a razão, e é justamente isso que precisa determinar.

A proposição que nos parece exprimir mais nitidamente o princípio geral da educação é esta: a educação tem por objeto o desenvolvimento harmônico, gradual e livre de todas as faculdades, submetendo-as todas ao império da razão. Esse princípio universal serve todos os interesses legítimos, todo fim racional, abarca todos os sentimentos e todas as disposições primitivas; aplica-se a todos os estados, a todas as classes da sociedade, e admite todas as educações especiais; no entanto, por isso mesmo interdita a cultura exclusiva ou muito predominante de toda faculdade particular, toda via interessada ou exclusivamente política, toda espécie de ilotismo[3] em matéria de educação.

A filosofia da educação reconhece, de resto, a insuficiência dos meios diretos que ela recomenda. Sabe de todo império que exercem incessantemente sobre a criança as circunstâncias em meio às quais ela se desenvolve, e essa não é uma das menores partes de sua tarefa de mostrar o quanto é importante tornar essas diversas influências o mais favoráveis possível, e não as deixar entregues ao acaso. (…)

A educação física tem por objeto a saúde, a força, a flexibilidade do corpo, e supõe algum conhecimento da fisiologia e da higiene. Ela compreende o que denominamos gymnastique [ginástica], os exercícios e os jogos corporais, a nutrição, o regime, a vestimenta que convém à criança e ao adolescente. Ela é boa em si, mas deve subordinar-se constantemente à educação do homem moral.

A educação moral baseia-se na psicologia: tem por objetivo elevar a alma dando-lhe a consciência de sua dignidade. Compreende todos os exercícios que têm por fim desenvolver e cultivar nossas faculdades morais e intelectuais. Ela se divide, na teoria, em tantas partes quantas há de faculdades distintas. A natureza superior do homem que cumpre formar e tornar predominante sobre a natureza animal, se manifesta por quatro necessidades principais que se referem às tantas disposições naturais. O homem aspira ao verdadeiro, ao bem, ao belo, ao infinito e, desenvolvendo-se, essas disposições se tornam a inteligência de ordem universal, a consciência moral, o sentimento do belo e o sentimento religioso.

A educação será, pois, alternadamente, ou melhor dito, será sempre e em toda parte intelectual, moral no sentido próprio, estética e religiosa. Ela tornará justas todas essas faculdades, e será tanto melhor se estiver na cultura de cada um, pois todas serão cultivadas com mais cuidado porque, ligadas intimamente entre si, elas se sustentam e se secundam mutuamente. Por isso mesmo cada uma conservará o lugar e a importância que respectivamente lhe pertence.

A educação intelectual, que não deve ser confundida com a educação lógica, que tem por objeto formar o juízo como meio de conhecer, é a educação mesma da razão; ele deve ao mesmo tempo esclarecer e edificar a inteligência; ela é o resultado geral da instrução, se esta for o que deve ser quanto ao seu objeto e seus métodos.

A educação moral, no sentido próprio, é a parte que oferece mais dificuldades, porque deve dar aos alunos, ao mesmo tempo, a consciência e o hábito do bem e da honestidade. Ainda aí a instrução, se for boa, faz a metade da obra: a instrução moral, segundo Fénelon, deve ser tal, que seus preceitos sejam livremente aceitos e que o aluno os considere como extraídos de sua própria natureza. Deste modo se formará o senso moral, o sentimento do justo e do bem. Após esse trabalho, resta apenas estar atento quanto às impressões que os alunos podem receber, aos exemplos que estão à sua volta, aos hábito que contraem, a lhes fazer seguir um bom regime moral, a fortalecer seu caráter e sua vontade. (…)

A mais alta moralidade possível é a finalidade de toda educação propriamente dita, e ela será melhor assegurada se todo o desenvolvimento do homem interior for melhor conduzido. A cultura intelectual a isso dispõe, a educação estética a fortifica, a educação religiosa a aperfeiçoa e sanciona.

A educação estética tem por objeto alimentar o sentimento da conformidade, da harmonia, do belo e do sublime. Esse sentimento está bem evidente nesses germes divinos pelos quais Deus fez o homens à Sua imagem. É preciso então, direcionando-a sobretudo às obras da natureza, às maravilha do céu, às altas aspirações do gênio poético, às belezas da história, o cultivar, inicialmente para si mesmo, e em seguida também no interesse da educação moral e religiosa.

Dissemos que a educação deve ser principalmente religiosa, e que deve servir integralmente a esse interesse sublime. Isto é verdade, se por religião entendemos a consciência que o homem tem de sua natureza superior, e por educação religiosa o desenvolvimento de tudo o que há em nós de elementos de origem divina: nesse sentido ela compreende toda educação moral e intelectual. Ao contrário, se, tomando essa expressão num sentido mais restrito, entendemos a educação de um sentimento especial então ela pode ainda penetrar de seu espírito a obra da educação integral, ela deve ainda ocupar um grande lugar, o primeiro lugar e o mais amplo, se quisermos; mas ela não deve ser tudo: é preciso que ela venha a seu tempo e em seu lugar. No mais, esse assunto é repleto de dificuldades particulares que não podemos resolver aqui. Devemos nos limitar a dizer que o importante a esse respeito é a maneira de despertar e alimentar o sentimento religioso, e nós recomendaremos, ainda uma vez, o grande princípio de Fénelon que citamos acima.

A educação lógica tem por objeto formar o juízo, fortalecer o instrumento comum e necessário de toda educação e de toda instrução. Para formar o julgamento importa, antes de tudo, saber despertar e fixar a atenção; para torná-la ao mesmo tempo justa, fácil e pronta, é preciso exercê-la diretamente por interrogações feitas com essa intenção, indiretamente por certos estudos, como o da gramática e do cálculo, e também por toda maneira de ensinar e por uma boa gradação do ensinamento. Deve-se ao mesmo tempo exercitar o julgamento e a memória, e habituar esta última a guardar fielmente o depósito que lhe foi confiado. (…)

        

A educação segundo a filosofia Espírita

 

A educação, convenientemente entendida, constitui a chave do progresso moral. Quando se conhecer a arte de manejar os caracteres, como se conhece a de manejar as inteligências, conseguir-se-á corrigi-los, do mesmo modo que se aprumam plantas novas. Essa arte, porém, exige muito tato, muita experiência e profunda observação. É grave erro pensar-se que, para exercê-la com proveito, baste possuir conhecimentos. (Livro dos Espíritos, item 917)

 

         (…) Há um elemento, que se não costuma fazer pesar na balança e sem o qual a ciência econômica não passa de simples teoria. Esse elemento é a educação, não a educação intelectual, mas a educação moral. Não nos referimos, porém, à educação moral pelos livros e sim à que consiste na arte de formar os caracteres, à que incute hábitos, porquanto a educação é o conjunto dos hábitos adquiridos. Considerando-se a aluvião de indivíduos que todos os dias são lançados na torrente da população, sem princípios, sem freio e entregues a seus próprios instintos, serão de espantar as consequências desastrosas que daí decorrem? Quando essa arte for conhecida, compreendida e praticada, o homem terá no mundo hábitos de ordem e de previdência para consigo mesmo e para com os seus, de respeito a tudo o que é respeitável, hábitos que lhe permitirão atravessar menos penosamente os maus dias inevitáveis. A desordem e a imprevidência são duas chagas que só uma educação bem entendida pode curar. Esse o ponto de partida, o elemento real do bem-estar, o penhor da segurança de todos.[4]

 

"Louváveis esforços indubitavelmente se empregam para fazer que a Humanidade progrida. Os bons sentimentos são encorajados, estimulados e honrados mais do que em qualquer outra época. Entretanto, o egoísmo, verme roedor, continua a ser a chaga social. É um mal real, que se alastra por todo o mundo e do qual cada homem é mais ou menos vítima. Cumpre, pois, combatê-lo, como se combate uma enfermidade epidêmica. Para isso, deve-se proceder como procedem os médicos: ir à origem do mal. Procurem-se pois em todas as partes do organismo social, da família aos povos, da choupana ao palácio, todas as causas, todas as influências que, ostensiva ou ocultamente, excitam, alimentam e desenvolvem o sentimento do egoísmo. Conhecidas as causas, o remédio se apresentará por si mesmo. Só restará então destruí-las, senão totalmente, de uma só vez, ao menos parcialmente, e o veneno pouco a pouco será eliminado. Poderá ser longa a cura, porque numerosas são as causas, mas não é impossível. Contudo, ela só se obterá se o mal for atacado em sua raiz, isto é, pela educação; não por essa educação que tende a fazer homens instruídos, mas pela que tende a fazer homens de bem. A educação, convenientemente entendida, constitui a chave do progresso moral. Quando se conhecer a arte de manejar os caracteres, como se conhece a de manejar as inteligências, conseguir-se-á corrigi-los, do mesmo modo que se aprumam plantas novas. Essa arte, porém, exige muito tato, muita experiência e profunda observação. É grave erro pensar-se que, para exercê-la com proveito, baste possuir conhecimentos. Quem acompanhar, assim o filho do rico, como o do pobre, desde o instante do nascimento, e observar todas as influências perniciosas que sobre eles atuam, em consequência da fraqueza, da incúria e da ignorância dos que os dirigem, observando igualmente com quanta frequência falham os meios empregados para moralizá-los, não poderá espantar-se de encontrar pelo mundo tantas coisas erradas. Faça-se com o moral o que se faz com a inteligência e ver-se-á que, se há naturezas refratárias, muito maior do que se julga é o número das que apenas reclamam cultivo adequado, para produzir bons frutos. (872)[5]

 

(…) "Sendo os primeiros médicos da alma de seus filhos, os pais deveriam ser instruídos, não só de seus deveres, mas dos meios de cumpri-los. Não basta ao médico saber que deve procurar curar, é preciso saber como agir. Ora, para os pais, onde estão os meios de instruir-se nesta parte tão importante de sua tarefa? Hoje dá-se muita instrução à mulher; fazem-na passar por exames rigorosos, mas algum dia foi exigido da mãe que soubesse como fazer para formar o moral de seu filho? Ensinam-lhe receitas caseiras, mas foi iniciada aos mil e um segredos de governar os jovens corações?

Os pais, portanto, são abandonados sem guia à sua iniciativa. É por isto que tantas vezes seguem caminhos errados. Assim recolhem, nos erros dos filhos já crescidos, o fruto amargo de sua inexperiência ou de uma ternura mal compreendida, e a Sociedade inteira lhes recebe o contragolpe.

Considerando-se que o egoísmo e o orgulho são reconhecidamente a fonte da maioria das misérias humanas; que enquanto eles reinarem na Terra não se pode esperar nem paz, nem caridade, nem fraternidade, então é preciso atacá-los no estado de embrião, sem esperar que fiquem vivazes.

Pode o Espiritismo remediar esse mal? Sem dúvida nenhuma, e não hesitamos em dizer que ele é o único suficientemente poderoso para fazê-lo cessar, pelo novo ponto de vista com o qual ele permite perceber a missão e a responsabilidade dos pais; dando a conhecer a fonte das qualidades inatas, boas ou más; mostrando a ação que se pode exercer sobre os Espíritos encarnados e desencarnados; dando a fé inquebrantável que sanciona os deveres; enfim, moralizando os próprios pais. Ele já prova sua eficácia pela maneira mais racional empregada na educação das crianças nas famílias verdadeiramente espíritas. Os novos horizontes que abre o Espiritismo fazem ver as coisas de outra maneira. Sendo o seu objetivo o progresso moral da Humanidade, ele forçosamente deverá iluminar o grave problema da educação moral, primeira fonte da moralização das massas. Um dia compreender-se-á que este ramo da educação tem seus princípios, suas regras, como a educação intelectual, numa palavra, que é uma verdadeira ciência. Talvez um dia, também, será imposta a toda mãe de família a obrigação de possuir esses conhecimentos, como se impõe ao advogado a de conhecer o Direito.(…)[6]

 

Educação factícia, ou artificial

 

A benevolência para com os seus semelhantes, fruto do amor ao próximo, produz a afabilidade e a doçura, que lhe são as formas de manifestar-se. Entretanto, nem sempre há que fiar nas aparências. A educação e os costumes do mundo podem dar ao homem o verniz dessas qualidades. Quantos há cuja fingida bonomia não passa de máscara para o exterior, de uma roupagem cujo talhe primoroso dissimula as deformidades interiores! O mundo está cheio dessas criaturas que têm nos lábios o sorriso e no coração o veneno; que são brandas, desde que nada as agaste, mas que mordem à menor contrariedade; cuja língua, de ouro quando falam pela frente, se muda em dardo peçonhento, quando estão por detrás.

A essa classe também pertencem esses homens, de exterior benigno, que, tiranos domésticos, fazem que suas famílias e seus subordinados lhes sofram o peso do orgulho e do despotismo, como a quererem desforrar-se do constrangimento que, fora de casa, se impõem a si mesmos. Não se atrevendo a usar de autoridade para com os estranhos, que os chamariam à ordem, acham que pelo menos devem fazer-se temidos daqueles que lhes não podem resistir. Envaidecem-se de poderem dizer: Aqui mando e sou obedecido, sem lhes ocorrer que poderiam acrescentar: E sou detestado.

Não basta que dos lábios manem leite e mel. Se o coração de modo algum lhes está associado, só hipocrisia. Aquele cuja afabilidade e doçura não são fingidas nunca se desmente: é o mesmo, tanto em sociedade, como na intimidade. Esse, ao demais, sabe que se, pelas aparências, se consegue enganar os homens, a Deus ninguém engana. zaro.[7]

 

Educação religiosa no sentido filosófico

 

Todas as religiões precisaram, na sua origem, estar em relação com o grau de avanço moral e intelectual dos homens; estes, ainda demasiado materiais para compreender o mérito das coisas puramente espirituais, fizeram consistir a maioria dos deveres religiosos no cumprimento de fórmulas exteriores. Durante um tempo, essas formas bastaram à sua razão; mais tarde, fazendo-se a luz em seu espírito, eles sentem o vazio que as formas deixam atrás delas, e se a religião não o preenche, eles abandonam a religião e tornam-se filósofos. Allan Kardec [8]

 

(…) “Dissemos que o verdadeiro objetivo das assembleias religiosas deve ser a comunhão de pensamentos; é que, com efeito, a palavra religião quer dizer laço. Uma religião, em sua acepção ampla e verdadeira, é um laço que religa os homens numa comunhão de sentimentos, de princípios e de crenças. Consecutivamente, esse nome foi dado a esses mesmos princípios codificados e formulados em dogmas ou artigos de fé. É neste sentido que se diz: a religião política; entretanto, mesmo nesta acepção, a palavra religião não é sinônima de opinião; implica uma ideia particular: a de fé conscienciosa; eis por que se diz também: a fé política. Ora, os homens podem alistar-se, por interesse, num partido, sem ter fé nesse partido, e a prova é que o deixam sem escrúpulo, quando encontram seu interesse alhures, ao passo que aquele que o abraça por convicção é inabalável; ele persiste à custa dos maiores sacrifícios, e a abnegação dos interesses pessoais é a verdadeira pedra de toque da fé sincera. Contudo, se a renúncia a uma opinião, motivada pelo interesse, é um ato de desprezível covardia, é respeitável, ao contrário, quando fruto do reconhecimento do erro em que se estava; é então um ato de abnegação e de bom-senso. Há mais coragem e grandeza em reconhecermos abertamente que nos enganamos, do que persistirmos, por amor-próprio, no que sabemos ser falso, e para não darmos um desmentido a nós mesmos, o que acusa mais teimosia do que firmeza, mais orgulho do que bom-senso, mais fraqueza do que força. É mais ainda: é hipocrisia, porque queremos parecer o que não somos; além disso é uma ação má, porque é encorajar o erro por nosso próprio exemplo.

O laço estabelecido por uma religião, seja qual for o seu objetivo, é, pois, um laço essencialmente moral que liga os corações, que identifica os pensamentos, as aspirações, e não apenas o fato de compromissos materiais que podemos romper à vontade, ou da realização de fórmulas que falam mais aos olhos do que ao espírito. O efeito desse laço moral é o de estabelecer entre as pessoas que ele une, como consequência da comunhão de vistas e de sentimentos, a fraternidade e a solidariedade, a indulgência e a benevolência mútuas. É nesse sentido que também se diz: a religião da amizade, a religião da família.

Se assim é, perguntarão, então o Espiritismo é uma religião? Ora, sim, sem dúvida, senhores; no sentido filosófico o Espiritismo é uma religião, e nós nos glorificamos por isto, porque é a doutrina que funda os laços da fraternidade e da comunhão de pensamentos, não sobre uma simples convenção, mas sobre as mais sólidas bases: as próprias leis da Natureza.

Por que, então, temos declarado que o Espiritismo não é uma religião? Porque não há uma palavra para exprimir duas ideias diferentes, e porque, na opinião geral, a palavra religião é inseparável da ideia de culto; porque ela desperta exclusivamente uma ideia de forma, que o Espiritismo não tem. Se o Espiritismo se dissesse religião, o público não veria aí senão uma nova edição, uma variante, se quiserem, dos princípios absolutos em matéria de fé; uma casta sacerdotal com seu cortejo de hierarquias, de cerimônias e de privilégios; ele não o separaria das ideias de misticismo e dos abusos contra os quais tantas vezes a opinião pública se levantou.

Não tendo o Espiritismo nenhum dos caracteres de uma religião, na acepção usual do vocábulo, não podia nem devia enfeitar-se com um título sobre cujo valor as pessoas inevitavelmente ter-se-iam equivocado. Eis por que simplesmente se diz: doutrina filosófica e moral.

As reuniões espíritas podem, pois, ser feitas religiosamente, isto é, com o recolhimento e o respeito que comporta a natureza grave dos assuntos de que elas se ocupam. Pode-se mesmo, na ocasião, fazer preces que em vez de serem ditas em particular, são ditas em comum, sem que por isto as tomem por assembleias religiosas. Não penseis que isto seja um jogo de palavras; a nuança é perfeitamente clara, e a aparente confusão é devida à falta de um vocábulo para cada ideia.

Qual é, pois, o laço que deve existir entre os espíritas? Eles não estão unidos entre si por nenhum contrato material, por nenhuma prática obrigatória; qual o sentimento no qual se devem confundir todos os pensamentos? É um sentimento todo moral, todo espiritual, todo humanitário: o da caridade para com todos, ou, por outras palavras: o amor ao próximo, que compreende os vivos e os mortos, pois sabemos que os mortos também fazem parte da Humanidade.(…)[9]



[1] Obtido por arte; artificial; falso; que parece ser ou existir; que é só aparente. in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa. (N.T)

[2] Cultura da terra; que têm relação ao trabalho do campo; agricultura. (N.T)

[3] Condição de alguém em estado de dependência de outra pessoa; servidão. Ilotismo deriva do termo ilota, como eram chamados os escravos em Esparta. (N.T)

[4] O Livro dos Espíritos - Parte Terceira - Das leis morais, cap. III - 2. Lei do trabalho - Limite do trabalho. Repouso, item 685.

[5] O Livro dos Espíritos - Parte Terceira - Das leis morais, cap. XII - Da perfeição moral - O egoísmo, item 917.

[6] Revista Espírita, fevereiro de 1864 - Primeiras lições de moral da infância.

[7] O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. IX - Bem-aventurados os que são brandos e pacíficos - Instruções dos Espíritos - A afabilidade e a doçura, item 6.

[8] O Céu e o Inferno - Primeira Parte - Doutrina, cap. I - O futuro e o nada, item 12

[9] Revista Espírita, dezembro de1868 - Sessão anual comemorativa dos mortos

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